As exigências de UX estão mudando. Entender o que está sendo cobrado ajuda mais do que tentar adivinhar quando uma profissão vai acabar.
“A IA vai substituir os designers.” Você provavelmente já esbarrou nessa frase entre uma vaga no LinkedIn e uma demonstração de ferramenta que cria um aplicativo em segundos.
Pra quem está procurando emprego, isso pesa. Pra quem está empregado e viu o time diminuir, também. Só que a frase mistura duas discussões: o que pode ser automatizado e o que leva uma empresa a contratar ou dispensar alguém. Tratar tudo como uma disputa entre pessoas e máquinas deixa de fora boa parte do problema.
Vale olhar para uma pergunta mais próxima da vida real: que trabalho esperam de quem ocupa uma vaga de UX?
No Panorama de UX, a VagasUX mostra um gráfico de cargos referente a 2025. Naquele recorte, aparecem 204 vagas de Product Designer, 73 de UX Designer e 18 de UI Designer. A curadoria inclui áreas correlatas, como design gráfico, que reúne 96 vagas. São oportunidades registradas pela comunidade, não o total de vagas do país.
A presença de Product Designer chama atenção e dá uma pista prática para a busca: procurar apenas pelo título “UX Designer” pode deixar oportunidades fora do radar. O nome do cargo, sozinho, não conta quais responsabilidades vêm junto. É preciso ler a descrição.
Entre as principais habilidades pedidas, ela lista conceitos de UX/UI, Design Thinking e Figma, junto de comunicação, trabalho colaborativo e pesquisa. Saber operar a ferramenta faz parte do trabalho; explicar uma escolha e investigar uma dificuldade da pessoa usuária também.
Esses dados não mostram uma evolução dos requisitos ao longo dos anos nem medem o efeito da IA nas contratações. Seria um salto dizer que comprovam uma migração de “execução de telas” para “estratégia”. O que eles oferecem é um recorte concreto de cargos e uma indicação das competências procuradas.
Uma leitura sobre a mudança de expectativas aparece na análise State of UX 2026, publicada em janeiro pela Nielsen Norman Group. A entidade descreve um mercado ainda competitivo, com oportunidades de entrada escassas, e aponta a concentração de responsabilidades antes distribuídas entre especialistas. Também identifica uma cobrança maior por julgamento e contribuição para os resultados do negócio. É uma análise do setor, não uma estatística das vagas brasileiras. Leia a análise da NN/g.
Nossa recomendação a partir dessas referências: prepare a candidatura para explicar decisões de produto, além de apresentar a execução. Isso tem consequências bem concretas.
Pense em um case de cadastro. Mostrar as telas ajuda a avaliar hierarquia visual, estados de erro e cuidado com a interface. Mas o projeto deixa perguntas em aberto quando termina aí. O que fazia as pessoas desistirem? Como você descobriu? A mudança resolveu a dificuldade ou apenas deixou o formulário mais bonito?
Saber responder exige contato com o problema. Às vezes, exige admitir que a hipótese inicial estava errada.
É nesse sentido que a expressão “o piso subiu” merece atenção. Quem está começando pode se preparar para explicar o raciocínio por trás de uma escolha, sem fingir que já liderou decisões que nunca estiveram sob sua responsabilidade. Uma vaga júnior precisa oferecer supervisão e espaço para aprender. Cobrar atuação de sênior com salário de entrada continua sendo uma escolha da empresa, não uma deficiência de quem se candidata.
Também seria um erro concluir que agora todo designer precisa virar PM ou analista de dados. Entender uma métrica pode começar por uma pergunta simples: o que estamos contando?
Num fluxo de agendamento, por exemplo, mais cliques no botão não significam necessariamente mais agendamentos concluídos. A pessoa pode clicar várias vezes porque não recebeu confirmação. Defender uma decisão de design inclui perceber essa diferença antes de comemorar o gráfico.
E onde a IA entra?
Ela pode ajudar a rascunhar alternativas de conteúdo, organizar material e produzir uma primeira versão de protótipo. São usos que merecem experimentação. O ganho precisa ser avaliado depois da revisão: quanto trabalho ficou pronto para uso e quanto precisou ser refeito?
Imagine uma síntese de entrevistas sobre um aplicativo de saúde. O resumo agrupa relatos sob o tema “dificuldade para agendar”. Ao voltar às falas, você encontra situações distintas: alguém não entendeu o nome da especialidade; outra pessoa entendeu o fluxo inteiro, mas não encontrou horário.
Uma mudança de texto pode ajudar no primeiro caso. O segundo exige discutir a oferta de atendimento. Aceitar o agrupamento sem investigar pode levar o time a redesenhar uma tela que não resolve a reclamação.
Esse é um exemplo hipotético, mas serve como exercício: a síntese permite chegar às evidências que sustentam a conclusão? Preservou as diferenças entre os relatos? A recomendação responde ao que as pessoas disseram?
Usar IA com critério inclui conseguir explicar o que você descartou. Um resultado bem escrito ainda precisa ser conferido.
O julgamento humano também não é infalível. Designers se apegam a soluções, interpretam mal entrevistas e cedem à pressão por prazo. Por isso, defender a participação humana significa cobrar responsabilidade pelas escolhas e criar meios de verificar se elas funcionaram. A frase “a IA sugeriu” não explica por que uma decisão foi aprovada.
O relatório da VagasUX traz um conselho que merece acompanhar qualquer conversa sobre atualização: não arriscar mais do que sua situação permite. Estudar precisa caber no orçamento e no tempo disponível. Há espaço para aprender sem assinar toda ferramenta lançada na semana.
Escolha uma tarefa que você conhece e faça um teste pequeno com material que possa usar nesse ambiente. Pode ser revisar um roteiro de entrevista. Peça à ferramenta que identifique perguntas que induzem respostas e confira cada apontamento. Registre onde ela ajudou e onde interpretou mal. Você começa a construir um critério próprio de uso, apoiado no seu conhecimento de pesquisa.
No portfólio, essa experiência pode aparecer quando tiver relação com o projeto. Dizer “usei IA” informa pouco. Explicar que você rejeitou uma sugestão por contrariar uma evidência mostra como trabalhou.
A mesma atenção vale para os resultados. Se o projeto não foi lançado, conte o que conseguiu observar no teste e o que ainda precisaria medir. Se houve uma melhora depois do lançamento, explique como ela foi acompanhada e quais outras mudanças aconteceram no período. Um número sem contexto pode enfraquecer um case.
Nada disso garante contratação. Pessoas competentes também são demitidas, e estudar não corrige sozinho a falta de vagas. O discurso de que só corre risco quem parou de evoluir transforma um problema de mercado em culpa individual. Uma comunidade de UX precisa oferecer algo melhor do que essa cobrança.
A pergunta “o que preciso aprender para que a IA trabalhe a meu favor?” é útil quando cabe na sua rotina e parte de uma necessidade concreta. Talvez a prioridade seja aprender a avaliar uma síntese. Talvez seja entender melhor a métrica que seu time acompanha. Ou conseguir explicar um projeto que você já fez, sem esconder as dúvidas e mudanças de direção.
Pegue um case seu e releia a parte que vem antes das telas. Está claro por que aquele problema merecia atenção? Dá para identificar o que você descobriu e como isso mudou sua decisão?
Leve esse trecho para alguém da comunidade e peça que a pessoa diga o que entendeu. O que faltar nessa conversa já é um bom lugar para começar.
Antes de mandar mais um currículo, vamos conversar sobre sua carreira em UX?
Portfólio, candidaturas e a cabeça de quem está tentando: a coleção de conteúdos da UXFor convida a olhar para tudo isso com mais cuidado.
Você abre uma vaga, lê os requisitos e começa a fazer uma lista mental do que falta. Abre outra e a lista cresce. Quando percebe, já está pensando em refazer o portfólio inteiro, comprar um curso e mudar o título do LinkedIn. Tudo na mesma tarde.
Procurar trabalho em UX pode consumir um tempo enorme e deixar a sensação de que nada foi suficiente. Um processo termina sem retorno. Outro pede um desafio. A vaga que parecia combinar com você desaparece antes da entrevista.
Foi para dar espaço a conversas sobre carreira que a UXFor reuniu pessoas no Plano de Carreira em UX, realizado ao vivo em Fortaleza. A gravação está disponível para quem não conseguiu participar ou quer revisitar o encontro.
A coleção também conta com a live Direção de Carreira em UX. São dois conteúdos para acompanhar enquanto você pensa no que deseja fazer e organiza sua busca:
Assista à gravação do Plano de Carreira em UX, em Fortaleza.
Assista à live Direção de Carreira em UX.
Para acompanhar essa conversa, reunimos algumas sugestões de preparação. Elas partem de uma preocupação: ajudar você a fazer escolhas que caibam na sua vida, sem transformar cada candidatura em uma prova do seu valor.
Seu portfólio precisa tornar seu trabalho compreensível.
Quem abre um case precisa conseguir entender o problema e a sua participação. Se a pessoa termina a leitura sem saber o que você decidiu, a quantidade de telas dificilmente resolve essa dúvida.
Escolha um projeto e observe quanto espaço você dedica a explicar métodos. Há um parágrafo definindo o que é uma persona? Uma imagem do duplo diamante que poderia estar em qualquer outro portfólio? Experimente usar esse espaço para contar algo que só aconteceu naquele trabalho.
Pode ser uma entrevista que mudou a hipótese inicial. Uma restrição técnica que obrigou o time a rever a solução. Ou um teste em que as pessoas não entenderam algo que parecia óbvio para você.
Esses detalhes ajudam a mostrar como você trabalha quando o projeto sai do roteiro.
Deixe explícita a sua contribuição. Se a pesquisa foi conduzida por outra pessoa e você participou da análise, conte assim. Se a decisão foi coletiva, explique o que você levou para a discussão. Dar crédito ao time permite que quem avalia identifique sua atuação com mais precisão.
Os resultados também precisam de contexto. Uma redução de chamados aconteceu depois de qual mudança? Em que período foi observada? Houve outras alterações no produto ao mesmo tempo?
Nem todo projeto terá uma métrica de negócio disponível. Você pode apresentar o que observou em um teste, uma dificuldade que permaneceu ou o que precisaria acompanhar após o lançamento. Um projeto acadêmico deve estar identificado como acadêmico. Uma hipótese de resultado deve continuar sendo hipótese.
Antes de redesenhar o site inteiro, confira o básico: os links abrem? O texto está legível no celular? É fácil encontrar seu contato? Alguém consegue identificar sua área de atuação logo no início?
Peça a uma pessoa da comunidade que leia um case e explique o que entendeu. Segure a vontade de completar a história enquanto ela fala. O que você precisa explicar por fora talvez esteja faltando no texto.
A candidatura começa na escolha da vaga.
Uma descrição extensa pode misturar requisitos essenciais com uma lista de desejos. Leia procurando entender o trabalho: quais problemas essa pessoa vai assumir? Que experiência parece indispensável? O que pode ser aprendido com apoio?
Você não precisa se descartar por cada ferramenta desconhecida. Também não precisa investir horas em uma oportunidade incompatível com seus limites de remuneração ou disponibilidade.
Na apresentação da VagasUX sobre entrada na área, aparecem recomendações de preparar o portfólio, organizar o LinkedIn e ter um currículo adequado aos sistemas de triagem. Um jeito de aplicar isso é usar descrições claras e termos que correspondam à sua experiência. Se você conduziu testes de usabilidade, escreva isso de forma direta. Não espere que alguém deduza a atividade de uma frase vaga sobre “melhorar experiências”.
Para cada oportunidade que fizer sentido, escolha quais experiências merecem aparecer primeiro. Uma vaga de pesquisa pede que você dê visibilidade à investigação e à análise. Uma posição com foco em interface precisa permitir que a pessoa avalie a qualidade da execução.
Na entrevista, prepare-se para contar o projeto sem depender de uma apresentação longa. Comece pelo problema, explique uma decisão importante e esteja disponível para aprofundar. Ensaiar com alguém ajuda a perceber onde você se perde em detalhes ou usa termos que não consegue explicar com clareza.
Pergunte sobre a empresa também. Quem acompanha o desenvolvimento de uma pessoa júnior? Como o time tem acesso a usuários? O que esperam da contratação nos primeiros meses? As respostas ajudam a avaliar o trabalho que existe por trás do anúncio.
A busca precisa caber na sua vida.
Ficar disponível o dia inteiro para procurar vagas pode fazer cada silêncio parecer maior. Vale experimentar horários definidos para candidaturas e um momento separado para revisar materiais. Quando encerrar esse período, você pode parar sem precisar justificar a pausa com mais uma tarefa.
Estabeleça metas que dependam de você. Revisar um case é uma ação possível. Conseguir uma entrevista até sexta depende de decisões que você não controla.
Uma recusa informa que aquela contratação não aconteceu. Sozinha, ela não explica o motivo. Sem feedback, concluir que você é incapaz preenche a falta de informação com a interpretação mais dura.
Isso não impede uma revisão honesta. Se várias candidaturas não avançam, pode valer pedir uma leitura do currículo e observar quais vagas você escolheu. Se as conversas chegam à apresentação de portfólio e param ali, um ensaio com feedback pode ajudar. Procure padrões antes de reconstruir toda a sua identidade profissional por causa de um processo.
Cuide também da comparação. Um anúncio de contratação mostra um resultado; quase nunca mostra o tempo de busca, as indicações ou as recusas anteriores. Reduzir a exposição a conteúdos que deixam você em estado permanente de insuficiência é uma escolha possível.
A VagasUX traz uma orientação que merece atenção: não arriscar mais do que sua situação atual permite. Um plano de carreira precisa considerar dinheiro e tempo disponível. Comprar um curso por medo de ficar para trás pode criar uma despesa antes de resolver uma necessidade.
Tenha com quem conversar sem precisar apresentar progresso. A comunidade pode revisar um portfólio e compartilhar oportunidades, mas também pode ouvir um “essa semana foi difícil” sem responder imediatamente com uma lista de coisas para fazer.
Para assistir aos conteúdos da UXFor, leve uma pergunta sua. Algo que esteja difícil de decidir agora: quais projetos manter, como explicar uma transição ou o que você aceita no próximo trabalho.
Comece pela gravação do Plano de Carreira em UX, em Fortaleza, e continue com a live Direção de Carreira em UX.
Ao terminar, escolha uma ação pequena que tenha relação com essa pergunta. Pode ser pedir feedback sobre um case ou conversar com alguém sobre uma área que você está considerando. O restante da lista pode esperar.
Referências:
VagasUX. Vale a pena ser UX? Desafios, mercado e como começar. Apresentação fornecida à UXFor, com créditos a Mah Piacesi, Andre Hiro e Anna Barros. Gráfico de cargos identificado como 2025, slide 33; habilidades, slide 47. Os números se referem à curadoria apresentada e não devem ser tratados como um censo do mercado. Veja a apresentação completa aqui.
NN/g. State of UX 2026 (jan/2026): mercado estabilizou em 2024–2025, mas vagas de entrada seguem escassas e competitivas. https://www.nngroup.com/articles/state-ux-2026/
UXFor e VagasUX. Plano de Carreira em UX. Gravação do evento realizado ao vivo em Fortaleza. YouTube. Assista à gravação.
UXFor. Direção de Carreira em UX. Live da coleção de conteúdos sobre carreira em UX. YouTube. Assista à live.

